Punctum é o cerne, é a verve da imagem e da imagem da palavra que assim é concebida no caminho para o pensamento, daí multiplicado em sinapses motivadas por pequenas explosões nucleares no aparato receptor de sensações estéticas.
Esta é a minha releitura de um conceito criado pelo filósofo e semiólogo francês, Roland Barthes, em seu livro A Câmara Clara, de 1980, um tratado tão lírico quanto semiótico sobre a fotografia.
A estética passou a fazer parte da minha vida ainda muito cedo. Roupas e padrões de harmonia visual me chamavam atenção. A arquitetura diferenciada de uma casa. A disposição das árvores na praça, onde passei minha primeira infância. Os vestidos de minha mãe. Os diferentes tipos de carros nas ruas. O logo da Copa de 78.
Na adolescência descobri a fotografia.
Com recursos de meu primeiro estágio, comprei na Cidade do Leste, Paraguai, minha máquina fotográfica analógica, uma Canon A1, que me retornou o investimento de formas incalculáveis – e funciona até hoje. O estágio foi em uma agência de publicidade de Salvador, que ao iniciar seu esforço no marketing político e querer me transformar em pesquisador de podre das outras candidaturas, aceitou a minha opção em ir para o laboratório fotográfico.
Nessa época, final dos anos 1980, e por mais outra década ainda no Brasil, composição de página para impressão era feita em fotolito. O laboratório recebia um grande volume de trabalho de revelação e ampliação de fotografia e tipografia na preparação de anúncios para jornais e revistas. Ali, cheirando o forte odor de amônia do fixador e manipulando ampliadores, despertei para composições de imagens e disposição de letras.

Pouco tempo depois, apaixonado pelo cinema do meu conterrâneo, Glauber Rocha, e com o resultado do curso de produção de vídeo do Goethe Institut, onde aprendi a editar com bastante facilidade, trabalhei como diretor de edição do jornal local da TV Itapoan.
Saí do país naquela que achava ter sido a pior fase do Brasil, em 1990, Plano Collor et al; pouco eu sabia ou acreditasse possível que teria repeteco.
Mudei-me para San Francisco, o centro sísmico do desenvolvimento da tecnologia digital que hoje condiciona a vida da maioria das pessoas no planeta, em maior ou menor grau de benefício ou eficiência.
Cheguei na Califórnia no momento em que a união entre o computador, a fotografia e o vídeo criavam experiências interativas.
Bem antes da Internet, trabalhei criando integração das diferentes mídias: a palavra, a fotografia, a ilustração, o vídeo, o cinema, a composição
em movimento, o efeito especial super-imposição de ação em ambientes virtuais, até colorimetria para videogames e apresentações.
No alvorecer da Internet em sua versão world wide web, bem no olho do furacão, associei-me como diretor de criação e designer de interação a uma empresa iniciante de quatro funcionários. Quando deixei a Zoomedia sete anos depois, a empresa tinha quase trinta pessoas e dezenas de contas com empresas do setor de saúde e farmacêutico.
De volta ao Brasil, na esperança Lula 1, e sendo pai recente, fui viver no Recife, longe do turbilhão da velocidade da indústria de tecnologia para me dedicar à família. Na idílica Olinda passei dias, meses e anos pacatos editando, criando efeitos especiais, motion graphics e passando o conhecimento acumulado para as pessoas na TV VIVA.
No entanto, já a partir do quarto ano no Recife, eu passei a dividir meu tempo profissional para alavancar o brand da organização não-governamental Gestos, gerando visibilidade tanto para financiadores quanto para a população atendida, realizando de reuniões a oficinas.

Relatório Luz
Ao mesmo tempo, em 2007, um roteiro meu foi selecionado pelo Programa Petrobras Cultural através da Lei Rouanet. O roteiro se transformou no curta-metragem Um Médico Rural, baseado no conto homônimo de Franz Kafka. O filme, produzido pela agora dissolvida Lamparina Filmes, só ficou pronto em 2009, pois o trabalho com a Gestos tomou proporções mundiais com um projeto de cooperação Sul-Sul envolvendo dezesseis países, o Fórum UNGASS-AIDS.
Após realizar mais um curta-metragem como produtor e finalizador, Urbanos, o punctum voltou-se principalmente a economia política, minha formação acadêmica. Em resumo: palestras, textos, incontáveis reuniões, ativismo e advocacy em diversas partes do Brasil e do mundo. Muito diálogo, troca de ideias, e filmes assistidos e re-assistidos em avião. |::|
Em 2015, a ONU estabeleceu os objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS) na Agenda 2030, o acordo político que desde então tem guiado todas iniciativas multilaterais (G20, COP, IFI, UNCTAD etc.) Colaborei como representante da Gestos nas negociações diplomáticas que resultaram nos grandes acordos desse ano, principalmente na III Conferência Internacional de Financiamento para o Desenvolvimento.
Por vinte anos combinei design, semiótica e economia para avançar causas relacionadas à garantia de direitos humanos para populações que são vulneráveis como resultado de estruturas políticas. Deste trabalho, destaco o GT Agenda 2030 e seu consistente Relatório Luz do Desenvolvimento Sustentável, uma ferramenta semiopolítica de resistência propositiva e rigor metodológico única no mundo.
©cgf | punctum.one
